Isolamento acústico (2)

O quarto não devia ter mais do que 10m². A luz invadia o cômodo de forma tímida por uma janela na parede colorida. Não era escuro, mas também não era claro. Havia uma cama a poucos passos da porta, uma escrivaninha na parede oposta, sobre a qual ficavam um computador e alguns papéis. O quarto era ocupado ainda por uma pequena televisão, uns armários e umas estantes com muitos livros.

A pintura azul das paredes era visível apenas em uma das superfícies. Todas as outras eram revestidas por caixas de ovos. “Por que as caixas de ovos?”, perguntei. À sua maneira, ela explicou que o objetivo principal era impedir que a poluição sonora lhe atrapalhasse os pensamentos. Na primeira e única vez em que visitei seu quarto, as caixas de ovos foi o que mais me chamou a atenção.

Com um olhar era impossível desvendar aquele mistério. Presumi que a ocupante buscava refletir na disposição do quarto uma imagem perfeita de sua personalidade. Nunca pude ter certeza se minha suposição era correta. O fato é, no entanto, que o cômodo falava pouco. Assim como ela, parecia prestar muito mais atenção à sua volta. Tentava absorver as cores, os cheiros, os gostos, as vibrações daquilo que a rodeava.

As caixas de ovos não eram a única forma de isolamento acústico. No dia-a-dia meus olhos sempre desviavam para os grandes fones de ouvido que ela carregava pendurados ao pescoço. Jamais tive coragem de perguntar se ela ouvia em sua reclusão. Nunca soube se ela tocava algum tipo de instrumento, se fazia parte de uma banda. Ela jamais demonstrou qualquer tipo de talento musical. Pelo contrário, sempre errava o tempo das músicas e nunca se atrevia a cantar.

Apesar do isolamento, ela conseguia sempre se manter a par do corrente “lá fora”, de alguma forma. Em nossos monólogos ao longo dos anos, ela jamais demonstrou qualquer tipo de dúvida ou desconhecimento. Os assuntos eram debatidos com afinco, dedicação, profundidade.

Não sei dizer ao certo como foi a primeira vez em que a vi. Tenho certeza somente de que, quando me dei conta, ela estava lá. Também não faço idéia de quanto tempo convivemos. Sei apenas que não foi o suficiente. Não houve tempo hábil para que pudesse contemplar seu charme; me perder em seus pensamentos; naufragar em seus olhos; me esconder em seu abraço; me acostumar com sua maneira esnobe. Ela era demais para aqueles 10m². Ela sobrava em qualquer lugar. Inclusive no meu coração.

Seu único defeito – que sempre me incomodou – era me ignorar quando não falava de frente para ela. Não sei se era arrogância de sua parte e, novamente, nunca tive coragem de perguntar. O respeito que tinha por ela e, acima de tudo, o medo dela achar minhas indagações estúpidas, me faziam selecionar bem as questões que propunha. Tinha medo dela decidir que minha inferioridade não era mais digna de sua companhia. E, mais ainda, me atemorizava a possibilidade dela me afastar para sempre.

Lembro-me da primeira vez em que ousei lhe perguntar algo. Todos os pormenores da ocasião estão frescos em minha memória. Era uma segunda-feira de manhã, havia acabado de chegar à universidade após uma noite mal dormida. Contemplei a multidão que conversava sobre o fim de semana nos pilotis da faculdade. Poucos comemoravam com camisas alvinegras – com gol de Lúcio Flávio, o Botafogo vencera o América e conquistara o título de campeão carioca de 2004. Apertei as pálpebras. Diminuí a entrada de luz que machucava os olhos cansados pelas poucas horas de sono. Olhei novamente ao redor e a vi sentada sozinha em um banco, de costas para mim, com os fones no ouvido.

Caminhei na direção dela evitando amigos. Naquele momento a vitória do meu time do coração era insignificante. Queria apenas falar com ela; perguntar por que estava ali sozinha; como se chamava; que curso fazia; para que time torcia; Porém, temia atrapalhar seu momento de introspecção. Absolutamente apavorado, decidi manter distância e, com muita cautela, soltei uma pergunta.

Fiquei impressionado com a forma como ela recebeu minha indagação. Foi uma reação extremamente inesperada. A atitude dela despiu-me de qualquer dignidade, deixou-me exposto. Desapontado, virei as costas e limitei-me a comemorar a vitória do Glorioso. A partir daquele momento, fui obrigado a assumir uma posição de inferioridade: ela exercia sobre mim um fascínio infinitamente maior do que o que eu exercia sobre ela. Diversas vezes voltei aquele momento, formulei teorias. Resta-me pensar que o vigor das centenas de vozes que inundavam o pátio da universidade naquele instante engolfou meu gemido tímido antes que este pudesse vencer a barreira de isolamento a que ela se propunha com os fones de ouvido.

Foi por medo de perguntar para ela que nunca soube o motivo que a fez partir. Antes dela ir embora, e isso faz alguns anos, ela proferiu umas poucas palavras. Guardo-as até hoje. Recordo que elas saíram da boca dela de forma vomitada. Parecia que ela tinha enorme dificuldade para se expressar. O som veio entrecortado, repleto de altos de altos e baixos. Parecia um menino na puberdade, com uma voz de gralha. “Seja surdo aos apelos negativos”, despediu-se.

Esse foi o último dos atos incompreensíveis dela. Confesso que não entendi o que ela quis dizer. Mas suas palavras me tocaram. Desde então, adotei outro rumo. Percebi que há muito o que ser visto, cheirado, provado, sentido. Não cheguei a forrar as paredes do meu quarto com caixas de ovos – o Rio é muito quente no verão. Mas comprei fones de ouvido iguais aos dela. E há momentos em que resolvo me isolar. Lá fico, deitado na cama, no escuro, imóvel, respirando o mínimo, a contemplar a maravilha do isolamento.

Não sei para onde ela foi. Muito averiguei depois que ela partiu. Perguntas supérfluas: como se chamava; porque havia ido sozinha; para onde ia; que curso fazia; para que time torcia. Nada. É possível que sua partida tenha um significado que não consigo entender. Desisti de tentar descobrir. Defini que era demais para a minha compreensão. Não queria compreender. Depois de tantas perguntas sem respostas, concluí que não era mais para investigar. Chega de perguntas banais. Não há dúvidas de que ela foi para um lugar melhor. Ela sempre foi muito acima da média. Acredito que em suas análises silenciosas, ela o percebeu.

Dei-me o luxo apenas de levantar uma última dúvida. Fico pensando se ela, algum dia, teria ouvido ou ouviria uma música de Walter Franco, na voz de Chico Buarque. Não sei o nome, mas é a cara dela. “Não diga nada// Saiba de tudo// Fique calada// Me deixe mudo// Seja no canto, seja no centro// Fique por fora, fique por dentro// Seja o avesso, seja a metade// Se for começo, fique a vontade// Não me pergunte, não me responda// Não me procure, e não se esconda ”. Agora, é só o que ouço, imóvel, no escuro…

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