Isolamento acústico

O quarto não devia ter mais do que 10m². A luz invadia o cômodo de forma tímida por uma janela na parede colorida. Não era escuro, mas também não era claro. Havia uma cama a poucos passos da porta, uma escrivaninha na parede oposta, sobre a qual ficava um computador e alguns livros. O quarto era ocupado ainda por uma pequena televisão, uns poucos armários e umas estantes com muitos livros.

A pintura azul das paredes era visível apenas em uma das superfícies: todas as outras eram revestidas por caixas de ovos. “Por que as caixas de ovos?”, perguntei. Em poucas palavras e com alguma dificuldade ele explicou que o objetivo principal era impedir que a poluição sonora lhe atrapalhasse os pensamentos. Na primeira e única vez que visitei seu quarto, as caixas de ovos foi o que mais me chamou a atenção.

Com um olhar era impossível desvendar aquele mistério. Presumi que o ocupante buscava refletir na disposição do quarto uma imagem perfeita de sua personalidade. Nunca pude ter certeza se minha suposição era correta. O fato é, no entanto, que o cômodo falava pouco. Assim como ele, parecia prestar muito mais atenção à sua volta, tentando absorver as cores, os cheiros, os gostos, as vibrações daquilo que o rodeava.

As caixas de ovos não eram a única forma de isolamento acústico. No dia-a-dia, meus olhos sempre desviavam para os grandes fones de ouvido que ele carregava pendurados ao pescoço. Jamais tive coragem de perguntar se ele ouvia em sua reclusão. Nunca soube se ele tocava algum tipo de instrumento, se fazia parte de uma banda. Ele jamais demonstrou qualquer tipo de talento musical. Pelo contrário, sempre errava o tempo das músicas e nunca se atrevia a cantar.

Apesar do isolamento, ele conseguia sempre se manter a par do corrente, de alguma forma. Em nossos monólogos ao longo dos anos, ele jamais demonstrou qualquer tipo de dúvida ou desconhecimento. Os assuntos eram debatidos com afinco, dedicação, profundidade.

Entretanto, sempre me incomodou o fato dele me ignorar quando não falava de frente para ele. Não sei se era arrogância de sua parte e, novamente, nunca tive coragem de perguntar. O respeito que tinha por ele e, acima de tudo, o medo dele achar minhas indagações estúpidas, me faziam selecionar bem as questões que propunha. Tinha medo dele decidir que minha inferioridade não era mais digna de sua companhia.

E por isso nunca soube o motivo que o fez partir. Antes dele ir embora, e isso faz alguns anos, ele limitou-se a poucas palavras. Elas saíram de forma vomitada, ensaiada. Parecia que ele tinha enorme dificuldade para se expressar: “Seja surdo aos apelos negativos”.

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