Uma província da roça

O protagonista de hoje é mais um trabalhador da grande metrópole. Não é um personagem das massas, mas não deixa de ter suas responsabilidades: acorda cedo, se arruma, estuda, trabalha e volta para casa. Ocupa o espaço que sua mãe humildemente lhe cede apenas para cochilar. O resto de seu tempo é gasto em algum lugar ou no trajeto para tal destino. Saindo do trabalho as 19:23, como todo trabalhador do turno da tarde, o protagonista corre para pegar o ônibus. A calçada desnivelada e a calça larga tentam complicar o seu trajeto até a porta entreaberta do Mercedez que o espera. Ao subir os três degraus que o separam da liberdade rumo ao lar, ele se dá conta de que, assim como ele, há outros milhares de funcionários de alguma empresa indo e vindo. O ônibus está cheio. Mas ele consegue avistar um assento vazio. Ele ocupa os espaços e, rapidamente, assegura seu lugar. A questão é que, só depois de sentado, é que ele percebe porque o lugar estava vago. O homem ao seu lado estava com uma aura de etanol bastante forte que se intensifica a cada expiração provada pelo carinho em sua galinha. Não, não é nada do que você está pensando e sim, o moço carregava uma galinha – o animal irracional – no ônibus. Depois do choque, o protagonista conseguiu entender: “O campeão não tem como transportar a sua galinha. Ela deve pôr os ovos da única refeição diária dele. É até compreensível”. Quando o protagonista finalmente se acostuma com a idéia, o velho está dormindo, roncando alto, em seu décimo sono. Do nada, absolutamente do nada, o grandpa acorda, começa a se mexer brutalmente – papo de ataque epilético –, cutuca nosso trabalhador e fala coisas ininteligíveis que se confundem com o bafo de álcool e com a falta de oportunidade e de atenção. Ao que, simpaticamente, o trabalhador responde: “Não estou entendendo porra nenhuma que o senhor está falando”.

 – Ah, certo, você não entenderia, desculpe – disse o galinheiro.

Na hora em que ia saltar do ônibus, ao percorrer os três degraus da liberdade para pisar na calçada, o vovô quase foi atropelado por uma carroça. Sim, uma carroça, puxada por um pangaré maltrapilho e triste. “Porra, Joelmo, tu vai ficar pilotando essa porra pra cima dos outros mesmo?”. Com o fechar das portas e o reinício do ronco silencioso de um 524 velho (Amigos Fudidos é o nome da companhia de autoviação), nada mais se ouviu. Mas foi possível perceber apenas que, apesar do status e do nome, a Rocinha é uma roça. E pior ainda, o Rio continua sendo uma cidade provinciana.

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