Radinho de pilha

11 de novembro de 2007. Flamengo x Santos. Estádio Jornalista Mário Filho.

Cabelos brancos, barba grande, óculos fundo:

– Ninguém hoje mais tem radinho, né…

Cabelo branco curto, pele marcada do tempo, levanta devagar os ombros como dissesse:

– É, outros tempos.

 

O radinho ficou marcado. Cena comum era um torcedor aflito com um rádio de pilha, coitado!, espremido contra a orelha, se esforçando para fazer com que a voz do locutor ficasse mais forte que a massa cantando em volta.

A torcida ainda faz festa. O rádio que não vem mais pra acompanhar.

São poucos os assíduos ouvintes que ainda carregam ao Maracanã o antes indispensável aparelho. De vez em quando, se vê um “velho com radinho”. Poucos, pouquíssimos. No Maracanã, ficam sentados sozinhos. Sozinhos, aliás, pra quem vê. Um “velho do radinho” nunca está só – a companhia é a voz presente no AM ou FM.

Segue a tradição. O velhinho chega ao Maracanã, senta no lugar de sempre, sintoniza na estação preferida e espera o locutor soltar seus bordões na voz já eternizada pelo alto-falante do radinho.

Quando avistados, passam a ser ponto de referência nas arquibancadas.

Se o juiz não dá o pênalti, todos em volta perguntam ao velhinho “o que o rádio falou?”. Se o impedimento é duvidoso, emendam direto, “foi ou não foi?”. Se um jogador corre pra entrar em campo, não hesitam: “quem sai?”.

O radinho de pilha sabe. O rádio sempre sabe antes do torcedor. E se o rádio sabe, o “velhinho do rádio” também sabe.

Em tempos de vinte câmeras em campo, pay-per-view, replay e câmera lenta, o fanático no estádio ainda pode recorrer ao bom e velho aparelho radiofônico. Suas ondas vêem o lance de perto, entendem primeiro, dizem antes.

A realidade é, como constataram os senhores saudosos do jogo de hoje, o sumiço dos radinhos. As pilhas foram trocadas. Mesmo eles, antigos donos de um surrado e quadrado radinho de pilha, hoje já não levam ao estádio os antigos companheiros.

Certas coisas mudam. Mas marcam gerações. E ficam na memória, de quando o futebol era drible, o lançamento, a triangulação, o canto da torcida e o chiado do radinho de pilha.

Uma resposta to “Radinho de pilha”

  1. Laura Says:

    Adorei amor! Você devia escrever mais e postar mais vezes!

    Quanto ao radinho, meu pai ainda leva o dele pro maraca e eu não diria que ele é velhinho! =p

    beijoteamo

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