A aventura de uma autocrítica

Martin Scorsese e eu compartilhamos de alguns gostos musicais e cinematográficos (e talvez alguns gastronômicos) mas não temos nenhum amigo em comum no Orkut.

O baixinho ítalo-americano de sobrancelhas grossas provavelmente nunca ouviu falar de mim e tampouco deve imaginar que um estudante brasileiro de 19 anos esteja postando nesse exato momento em um blog sobre como ele o ensinou a escrever sobre sua primeira experiência com Michelangelo Antonioni.

No dia 08/08, publiquei A minha aventura com Antonioni, no qual narrei o dia em que vi A Aventura pela primeira vez. Contaram pro Scorsese que haviam escrito um texto com essa temática – e que este estava terrivelmente mal-escrito – e ele decidiu, humildemente, mostrar como deve se portar um cinéfilo com ambições literárias ao descrever seus sentimentos frente a um filme.

Quatro dias depois, em 12/08, Martin Scorsese teve seu texto The Man Who Set Film Free publicado em um veículo ligeiramente mais respeitado que o Filhos da PUC – o New York Times.

Ele voltou a 1961, o ano de estréia de L’Avventura, pra fazer uma análise do que sentiu ao assistir pela primeira vez o filme de Antonioni. Contudo, a fez de maneira mais clara e pungente do que eu. Restaram a mim, como comentou precisamente o americano, alguns adjetivos em excesso, que não servem pra nada, apenas pra nariz-de-cerar o texto. É falar, falar, falar e dizer pouca coisa, quase nada.

O comentário do americano já tinha aberto meus olhos e me feito refletir sobre isso, mas o texto do Scorsese foi a razão para eu (re)pensar melhor e escrever uma autocrítica construtiva.

Desde que escrevo para o blog tento chegar a um estilo que seja o mais informal possível dentro de padrões aceitáveis de leitura e compreensão. Há o limite entre o verbal e o escrito, claro, mas floreamentos de linguagem só servem pra mascarar o que se quer dizer, principalmente num blog (ou em textos jornalísticos (há, claro, questões de estilo em editorias ou livros, mas isso é outra história)).  

Esse não é um tema novo. Na verdade, não faço idéia de quantas discussões, quantas mesas-redondas, debates, livros, autores, estudos, teses, etc, já tiveram discutindo isso. Também não faço idéia de quantas vezes eu já li sobre isso, já ouvi falar, já discuti esse assunto, tudo. O pior é que eu sei disso, mas quando começo a escrever às vezes me distraio, me deixo levar pelo caminho mais fácil, não me toco de quão distanciado e enfadonho fica um texto como esse meu último. Criar seu estilo próprio de contar as coisas é muito mais saudável do que contar como todo mundo faz.

Digo isso principalmente a partir do momento no post em que relato o que senti vendo A Aventura. Confesso (sem modéstia) que minha decepção com a fita de Blow-Up é emocionante. Quando, no entanto, chego na parte em que alugo e vejo A Aventura, meu texto poderia ser escrito por qualquer zé-mané, por ter clichês atrás de clichês, sem nada realmente palpável. Não mostro meu estilo, não fui autêntico, espontâneo – fui igual aos outros, igual com minhas falsas palavras e meias-explicações.

Não se pode fugir, claro, desses “clichês”, afinal, são boa parte deles que ajudam a realmente descrever o cinema do Antonioni. O americano comentou dizendo que meu texto era sincero – e talvez isso ele seja de verdade, mesmo com esses lugares-comuns convencionais; sinceridade essa que acaba por se esconder nas palavras, enquanto que ela deveria aparecer por causa delas. Toda essa sinceridade embutida desaparece no rebusque formal.

O que Scorsese faz é unir esses “clichês” com a descrição de seqüências e relação com as cenas do filme. Se no rádio o bom repórter é aquele que evita frases prontas e utiliza a riqueza dos detalhes para ser os “olhos” e “ouvidos” do ouvinte (e assim, podendo até dizer também coisas como “o clima está tenso no aeroporto de Congonhas após a colisão do avião”), Scorsese foi nossa memória, fazendo com que lembrássemos do filme e o entendêssemos por meio de suas explicações. E mesmo quem não assistiu à L’Avventura pode captar suas palavras, porque ele especifica, faz um texto inseparável do filme, honesto, em que aborda o cinema de seu ponto de vista. O meu texto, por sua vez, é quase aleatório: dá pra recortar partes e colar em qualquer lugar que poderia se encaixar.

Espero que esse texto aqui tenha sido mais sincero e interessante. Ao longo desses poucos – porém intensos – meses de blog, tento sempre me aperfeiçoar e me encaixar no esquema-internet, onde a informação é infinita e o tempo escasso. As críticas são sempre bem vindas e serão bem recebidas por mim, porque, afinal, sou (somos) apenas um projeto em desenvolvimento.

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