A minha aventura com Antonioni

Ingmar Bergman, diretor de cinema sueco, morreu na segunda-feira dia 30, como é de conhecimento geral. Nessa noite, minha namorada me liga comentando o assunto e pergunta se eu fiquei triste com a notícia. Gosto muito dos filmes do Bergman, mas sua morte não me afetou pessoalmente. Pensei (mas não falei) que se o Antonioni morresse ficaria triste.

Na manhã seguinte, tenho o seguinte diálogo com meu pai:

– Castello, viu que mais um cineasta morreu?

– Não, quem foi agora?

– O Antonioni.

– Mentira!

– É, ouvi hoje no rádio.

 

Antonioni

                                                Todo o charme de Antonioni

Minha relação com Antonioni começou no final de 2003-começo de 2004, durante minha busca incontrolável e incessante pelos filmes dos grandes mestres do cinema; aqueles de sempre, consagradíssimos, importantíssimos, etc. Depois de Bergmans e Fellinis, Kurosawas e Kubricks, chegava a vez dos Godards e Antonionis.

Michelangelo Antonioni, nome complicado, que eu sempre chamava erradamente de Antonini. Ouvia falar de seus filmes sem nunca tê-los visto, achava que os conhecia, sentia que já me aproximava do seu cinema sem nunca ter me deparado com um mísero enquadramento ou movimento de câmera. Sonhava com seu nome, seus filmes imaginários, com fortes italianos e belas italianas; com o nome de seus filmes, o curioso L’Avventura, o explosivo Blow-Up, o misterioso L’Eclisse, o diferente Profissão: Repórter.

Um dia de janeiro fui à Estação Paissandu em busca de seus filmes, em especial Blow-Up. Entre alguns DVD’s, achei Blow-Up em fita – sem nem pensar, aluguei. Depois de tanto pensando em Antonioni, tinha uma cópia comigo, a qual revirava, lia sinopses e admirava as pequenas fotos.

 

David Hemmings e Vanessa Redgrave em Blow-up

                                      David Hemmings e Vanessa Redgrave em Blow-up

Chegando em casa, entre os outros filmes também alugados (Gritos e Sussurros, Rocco e Seus Irmãos, Céu e Inferno e Stalker – viu como era uma busca pelos grandes nomes?), Blow-Up era indubitavelmente o filme a ser visto naquela tarde. Coloco a fita, mas meu vídeo pulguento hesita em colaborar comigo: chia, treme, tela azul, cospe a fita de volta.

Inconformado, continuei por mais meia-hora nessa luta contra o maldito vídeo, que insistia em me privar do tão falado Antonioni. Não adiantava. Fiquei desolado, perdido, inconfortavelmente solitário, isolado em um mundo opressor sem nem mesmo ter contato com a temática de Antonioni. Imerso no silêncio, me veio uma idéia salvadora, porque aquele tinha que ser o dia do meu primeiro contato com aquele famoso cineasta italiano.

Voltei correndo pra locadora dizendo que meu Blow-Up estava estragado. O cara testou a fita e funcionou. Por alguns segundos, eu vi imagens do filme, mas logo desviei o olhar para não estragar o momento. Sensibilizado pela minha paixão ainda não correspondida por Antonioni, o atendente venceu a incomunicabilidade humana e me disse para alugar outro filme. Corri pra prateleira do Antonioni e segurei com força L’Avventura.

– Agora é DVD, com certeza funciona, exclamei patético e triunfante.

L’Avventura, A Aventura. A capa: uma translúcida e belíssima Monica Vitti sobre um colorido pôr-do-sol na costa da Sicília. A sinopse: entre outras coisas, uma reflexão sobre a condição humana frente os outros humanos, sobre a própria existência do ser e a relação com o mundo. Coisa ruim não ia ser.

 

Capa do DVD de L'Avventura

A capa do DVD de L’Avventura

O filme começou e não sei explicar exatamente o que se passou comigo nos 143 minutos seguintes. Encurralado contra o sofá, estava maravilhado com as imagens, arrebatado pelos enquadramentos inspiradores, pelos personagens deslocados, mise-en-scene deflagradora, sempre à procura de algo, de uma vida. Minhas expectativas eram altíssimas e não foram decepcionadas. Assisti ao filme sem piscar, sem respirar. Antonioni me trazia um novo mundo, com seu próprio tempo, ritmo e atmosfera, com sua própria diagramação e encadeamento de planos. Estava sendo conduzido pela mão para dentro do filme, pelo próprio Antonioni, colocado naquela Itália preta-e-branca, sozinho em meio aos outros personagens, em meio ao resto do mundo, em busca de algo, de um sopro de vida. Os espaços abertos da Sicília, o mar, as ilhas.

 

L'Avventura

Os personagens de L’Avventura isolados dentro do mundo – o banco frágil, a parede que divide, o mar que segue infinito

Quando se é apaixonado pelo cinema em janeiro de 2004 com 16 anos, um filme que ataca os valores de uma sociedade e investiga a crise de um relacionamento de um modo não-convencional e ao mesmo tempo tão intimista, é alçado à condição de obra-prima.

E isso que L’Avventura foi. Um filme magistral que capturou meu olhar e logo foi figura fácil entre meus filmes preferidos.

A Aventura foi a porta de entrada para o mundo de Antonioni. Veio, enfim, Blow-Up (só funcionou no vídeo da minha tia), com sua inovação desafiadora de linguagem e uma cena final inesquecível; Profissão: Repórter, forte, delirante, e ainda tinha uma cena de sete minutos em que, sem cortas, a câmera atravessava uma janela com grades (!); o visual opressor de fumaça e civilização em Deserto Vermelho; o resto da trilogia do Antonioni (trilogia da incomunicabilidade? Trilogia da mulher moderna? Chame como quiser, trilogia da vida), A Noite e O Eclipse, os pares Jeanne Moreau e Marcelo Mastroiani do primeiro, ricos e entediados; ou Monica Vitti e Alain Delon, no segundo, sugados pelo mundo contemporâneo em que vivem – detalhe particular pra seqüência final. E mais e mais. Foram tantos, são tantos.

Antonioni morreu, mas nos deixou de presente o seu Cinema para que possamos assistir, admirar e discutir para sempre.

Uma resposta to “A minha aventura com Antonioni”

  1. Massa Says:

    Sinceridade sendo expressa de forma brilhantemente amigável e estupendamente refletora da união que constitui esse belíssimo e importantíssimo blog de informações inúteis e de consumo do irretornável, irretomável tempo:

    1. Se você não tivesse namorada eu diria que você é meio tendencioso! – Mas cada um é cada um.

    2. Consigo entender o excesso de adjetivos mravilhosos ao longo do texto, de tal forma a explicar, analisar, esclarecer sua irremediável, imensurável paixão pelo perfeito diretor italiano. Mas é como eu disse no começo desse enorme e cansativo parágrafo: excesso.

    Como diria o louco, e aparentemente rigoroso, Alfredo Grieco essa não é a minha opinião, é a minha impressão.

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