Post em resposta a Paula Richard

Para quem não soube, na última quarta-feira, 16 de maio, eu (Castello) postei um texto execrando o uso da frase “Você poderia ter morto outras pessoas!” na novela Vidas Opostas, da Rede Record. Dois dias depois, no dia 18, Paula Richard, colaboradora do roteiro da novela – e citada no texto -, escreveu dois comentários me chamando de ignorante e mal-informado. Segundo ela, eu estava insultando, pelo prazer de insultar, profissionais sérios como Marcílio Moraes sem saber de todo o trabalho envolvido na produção de uma novela. Para conferir tudo, clique aqui.

Primeiro, gostaria de esclarecer um fato trazido à tona por Paula Richard. Ela diz que não havia a frase “Você poderia ter morto outras pessoas!” no roteiro escrito por Marcílio, e sim “Mas meu querido, perdão, não consigo achar nenhuma graça… se a bomba tivesse explodido poderia ter matado não só o delegado mas outras pessoas…”. Como se vê, existem discrepâncias. Mesmo que o trecho citado por ela seja maior e mais completo – na verdade, eu fiz uma adaptação da frase, incluindo apenas a parte mais importante -, Lucinha Lins, de fato, falou “poderia ter morto”, mesmo que no roteiro estivesse a forma correta, “poderia ter matado”.

Robert Bresson, cineasta francês, uma vez disse que o filme nascia três vezes e morria duas. Na verdade, Bresson estava falando sobre qualquer produção audiovisual, então “novela” (no lugar de “filme”) se encaixaria perfeitamente. Nasce nas idéias, mas morre no roteiro; vive de novo ao ser encenado e filmado, mas morre na película (ou no vídeo); sua volta à vida definitiva é na edição. O nascimento da primeira idéia não será necessariamente igual ao resultado final na edição. Cada estágio pode apresentar mudanças, tendo a idéia original se transformando ao longo do processo. Como Paula Richard disse, acontece. Porém, o saudável seria uma mudança positiva, ou que fizesse sentido de acordo com a vontade do idealizador. O que é detestável é mudar para pior, para o errado. Por exemplo, se o ator troca “inquérito” por “processo”, deve-se corrigi-lo até que este fale “inquérito”. Se o ator fala “poderia ter morto”, deve-se corrigi-lo até que este fale “poderia ter matado”, forma correta do particípio passado do verbo matar. A famosa improvisação dos atores tem limite.

Depois de explicado que no roteiro havia a forma correta do tempo verbal, eu concordo com Paula que o equívoco foi da atriz, Lucinha Lins. Contudo, não se pode jogar toda culpa nela. Paula pode estar certa ao dizer que Marcílio é “muito criterioso e tem um enorme respeito pela língua portuguesa”, porém, ele não está isento de culpa nesse caso. Talvez eu não tenha noção de como seja o trabalho em uma novela, mas imagino que não seja muito diferente de um em qualquer produção cinematográfica. O roteirista, se não estiver presente durante as gravações, pelo menos deveria confiar a alguém a responsabilidade de checar se as frases estão sendo ditas da forma correta, ou dentro do bom senso.

Frases como “poderia ter morto” não podem passar incólumes. Embora obviamente eu não saiba quem estava presente na gravação dessa cena (se você, cara Paula, puder me dizer, ficarei grato), estou convicto de que a culpa não é só da Lucinha Lins. Se ninguém a corrigiu na hora, também estão errados. No sábado, assistia ao capítulo com mais duas pessoas e na mesma hora que ouvimos “poderia ter morto”, pulamos da cadeira. Salta aos ouvidos, é feio. Marcílio poderia não estar presente, mas ele como profissional sério e experiente não deveria permitir que seu roteiro fosse maculado desta forma. Além dele, todos que participaram da elaboração do roteiro deveriam estar preocupados com seu resultado final, assim como os diretores e produtores, pois todos respondem pela novela. A lista de culpados do “poderia ter morto” é extensa, e não se pode limitá-la a um simples erro de uma atriz.

A novela brasileira em geral faz grande sucesso. Pessoas de todas as classes param para assistir. Desse modo, ela vira fonte de entretenimento e informação. Grande parte da população que ouve uma frase dita em uma novela a toma por verdadeira. Vidas Opostas está com média de 13 pontos no Ibope (atingindo picos de 26) – boa média para uma emissora com pouca tradição em novelas – atingindo assim uma razoável parcela da população. De acordo com Paula, Marcílio Moraes acha “bom que o público escute um pouco do bom português”. Marcílio está certo, o bom português é necessário. Porém, se o “núcleo burguês” deve falar corretamente, devem-se tomar todas as providências para que tal ocorra: a novela atinge muita gente e erros como “poderia ter morto” estão longe do bom português.

Vidas Opostas trata da desigualdade entre o “rico” e o “pobre”, e ao representar um núcleo “não-burguês”, o “bom português” pode ser facilmente substituído pela linguagem mais informal, nem sempre a mais “correta”. Entretanto, quando uma personagem como Lucinha Lins exclama “poderia ter morto”, algo não está certo. Se há tanto profissionalismo na novela, se Marcílio é tão criterioso e nutre respeito pela nossa língua, então deveria existir mais comprometimento com o correto uso da mesma.

O fato é: Lucinha Lins falou “poderia ter morto”, e meu texto do dia 16 não perde sua validade depois do comentário de Paula Richard. Ela apenas ressaltou que no roteiro não havia o “poderia ter morto”. O que fica para o espectador, infelizmente, não é o roteiro, e sim as imagens, o capítulo gravado e editado. O que foi ouvido sábado pelo público foi “poderia ter morto”, e não o escrito no roteiro, “poderia ter matado”. O que foi ouvido foi um erro grosseiro, um triste assassinato da língua portuguesa. Paula Richard tem todo o direito de vir aqui responder ao meu texto, assim como eu tinha o direito de escrevê-lo. O que não pode é se esquivar da culpa e jogar a batata quente para mão de outro quando o erro foi geral.

3 Respostas to “Post em resposta a Paula Richard”

  1. fdpuc Says:

    Domingo bombando!

    Achei os três textos fodas, humildade a parte. Mas sei que o meu fica na 3ª posição fácil.

    Arariiiiiiiii BÓIA!

  2. Pra que lado o celular vibra? « Filhos da PUC Says:

    […] Pra que lado o celular vibra? Enquanto a saudosa Paula Richard não volta ao Filhos da PUC para ler minha resposta… […]

  3. Paula Says:

    Caro Filho da Puc, a gravação de uma novela é completamente diferente das filmagens de um filme. Completamente mesmo!
    O autor de novela nunca tem tempo de acompanhar gravações de cenas. O papel dele nem é este. Se vc tivesse noção do que é produzir novela, saberia. Se o autor parar de escrever para ir aos estúdios, a novela não vai ao ar. Ele só vê a cena quando é exibida na televisão e pode eventualmente chamar a atenção para erros e algo que não lhe convém. A função de dirigir é do diretor e mesmo assim trata-se de uma equipe de diretores que se dividem e gravam cenas separadamente, segundo o roteiro de gravações. Portanto, você poderia ter tido o cavalheirismo de apresentar desculpas pelos insultos proferidos ao Marcilio. A quem cabe a culpa pelo erro, nem entro no mérito da questão.

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