“Você poderia ter morto outras pessoas!”

Essa frase foi ouvida sábado passado na novela Vidas Opostas da Rede Record. A personagem de Lucinha Lins, Isis, afoita, vira e fala a dolorosa pérola: “Você poderia ter morto outras pessoas!”. É um brutal assassinato da gramática, com direito a estupro, estrangulamento, esquartejamento e tiro no coração. Quem passar por Vargem Grande, bairro onde é sediado o núcleo de teledramaturgia da Record, corre o risco de ver os restos mortais de Dona Gramática, pobrezinha.

O verbo matar aceita dois particípios passados distintos, um regular e outro irregular. O regular, matado, é usado com os verbos ter e haver; enquanto o irregular, morto, vem com os verbos ser e estar.

Deixar o autor Marcílio Moraes emplacar esse uso indevido de particípio é ridículo. Mesmo que às vezes haja alguma dúvida em como usar esse tempo verbal nos verbos irregulares, trocar matado por morto é… de matar. Só de ouvir soa bizarro. Leia em voz alta: “poderia ter morto!”. Claro que não. “Poderia ter matado”, aí sim. Só de escrever essa expressão no Word eu já sou corrigido – aparece a linhazinha verde (= erro gramatical) embaixo de “ter morto”. Tudo bem que o Word me aconselha a trocar por “ter morrido”, que apesar de estar certo, não é o que eu quero. Mas quem confia nessa correção mesmo?

O Sr. Marcílio Moraes pelo menos deveria dar algum valor a ela. Ele mesmo, que já vem de longa carreira como autor-roteirista na televisão brasileira. Já escreveu para a TV Globo (autor de Sonho Meu, supervisor de Malhação, co-autor de Chiquinha Gonzaga e Dona Flor e Seus Dois Maridos, colaborador de Roque Santeiro, entre outros) e em 2005 migrou pra Record. Depois de escrever a novela Essas Mulheres (com Rosane Lima), ele está fazendo sucesso com Vidas Opostas.

Vidas Opostas

          Léo Rosa e Maytê Piragibe: o casal desconhecido de protagonistas

Não estou aqui para falar dos seus scripts para essas novelas, mas para execrar o uso de “Você poderia ter morto outras pessoas!”. Como deixaram passar isso? Ter/haver = matado.

A lista de responsáveis é grande.

O diretor geral, Alexandre Avancini (de Kubanacan, Uga Uga) não se importou. Nem os seus colegas na direção, Edgar Miranda e Vicente Barcellos, se importaram.

Os colaboradores do roteiro – Luiz Carlos Maciel, Antônio Carlos da Fontoura, Joaquim Assim, Paula Richard e Melissa Cabral – também foram coniventes com esse crime.

E como os atores deixaram barato? Todos que participaram do capítulo leram esse roteiro com a maldita frase e nenhum deles estranhou seu uso? Cecil Thiré, Luciano Szafir, Roger Gobeth, Nicola Siri, Heitor Martinez, Marcelo Serrado, Lavínia Vlasak… E Lucinha Lins, com mais de 20 anos na TV, achou normal dizer “poderia ter morto”?

Nota-se um elenco talentosíssimo. Que elenco! Digno de receber até uma continuação: Vidas Opostas 2, autoria de Marcílio Moraes e direção geral de Alexandre Avancini. O problema é achar uma pérola à altura da parte 1.

Aliás, o que poderia se esperar de uma novela que tem Léo Rosa e Maytê Piragibe como casal de protagonistas? (exatamente: quem?)

Contudo, o que mais intriga é: como um profissional formado e competente como Marcílio Moraes, presidente da ARTV (Associação dos Roteiristas de Televisão), escreve uma besteira dessas?

Marc�lio Moraes

                              O sorriso maroto de Marcílio Moraes 

 

 

a) Sua professora de português do ensino médio era uma anta e disse que tanto fazia usar o particípio regular ou irregular. E ele acredita até hoje.

b) Ele não lê livros, jornais (em papel ou online), revistas, pichações de banheiro, manuais do iPod, panfletos políticos, flyers de festas raves ou bulas de remédio.

c) Queria dar uma de Guimarães Rosa e reinventar o português. Acabou fazendo merda.

d) Queria falar uma coisa diferente que, apesar de parecer errado e causar estranhamento em todos, no fundo no fundo, estaria certo. Fez merda de qualquer jeito.

e) Ele é burro.

f) Todas as opções acima.

2 Respostas to ““Você poderia ter morto outras pessoas!””

  1. PAULA RICHARD Says:

    Meu caro,
    Antes de insultar profissionais sérios, pense um pouco. Não havia a frase “Você poderia ter morto outras pessoas!” no texto. Marcilio é muito criterioso e tem um enorme respeito pela língua portuguesa. Quando questionado pela fala não tão coloquial de alguns personagens do núcleo burguês, ele respondeu: acho bom que o público escute um pouco do bom português.
    Enfim, trata-se evidentemente de um equívoco da atriz. Se tivesse alguma noção do que é o trabalho em uma novela, saberia que as pessoas estão sujeitas à erros. Temos um cuidado muito grande com o texto assim como com termos técnicos. Por exemplo, um ator disse uma vez “processo” no lugar de “inquérito”. Havia “inquérito” no texto, mas… acontece. Para q não tem conhecimentos jurídico, não fez diferença.
    Portanto, pense bem antes de insultar um profissional para não fazer papel de ignorante, vomitando insultos para se tornar interessante.
    Atc,
    Paula Richard

  2. PAULA RICHARD Says:

    Corrigindo a frase que vc citou, diretamente do roteiro:
    ISIS — Mas meu querido, perdão, não consigo achar nenhuma graça… se a bomba tivesse explodido poderia ter matado não só o delegado mas outras pessoas… . Não posso admitir que/

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