O ano em que nem eu nem o Mauro saímos de férias e ele pôde me ensinar como ser criança de novo

A infância sempre será a melhor parte da vida. Não há como duvidar. Sempre que perguntam do que Fulano sente mais falta, a resposta não falha: “da minha infância”. Retratar essa saudosa integrante do nosso passado no cinema é complicado. Infância é muito relativa porque varia de pessoa pra pessoa, de lugar pra lugar, de época pra época. Cada criança fez coisas diferentes em situações diferentes. Contudo, têm certos aspectos do “ser criança” que são comuns a quase todos.

Poster do filme O Ano em que Meus Pais Sa�ram de Férias

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, primeiro longa-metragem de Cão Hamburger, é certeiro ao retratar a infância. Começando pelo título. Os pais de Mauro, o personagem principal, não entraram de férias de verdade. São mais para férias forçadas. Em 1970, perseguidos pela ditadura, eles fogem sem pode contar pro filho a verdadeira razão. Criança nunca pode saber da verdade verdadeira, então sobrevive com meias-verdades e eufemismos como esse. O filme gira em torno dessas verdades mal-contadas, que Mauro pouco sabe sobre, e é isso que o torna tão genial e especial. Ele vai descobrindo as coisas aos poucos, mas nem sempre o que ele descobre realmente é a verdade. Exemplo claro disso é o final, quando ele disserta sobre seu futuro: “Eu acho que ser exilado é ter um pai tão atrasado que não vai chegar nunca”.

Toda criança é curiosa, está sempre olhando cada detalhe como se fosse a primeira vez, se surpreendendo com toda e cada coisa. Cao Hamburger filma várias cenas como se a câmera fosse uma criança. Sua câmera tem uma movimentação em torno do corpo de Mauro que é qualquer coisa de inexplicável. Dá pra sentir a angústia em querer ver, em querer descobrir o que há naquela nova cidade ou naquele novo apartamento.

Além da direção de Cao, todo filme é recheado de pequenos e saborosos detalhes que me fizeram ser criança de novo durante toda sua duração. Da primeira vez que assisti ao filme, senti essa contagiante presença infantil mas não foi tão arrebatador quanto da segunda assistida, em casa, no DVD.

Ver a seqüência de Mauro reclamando com velho judeu por ter que comer peixe no café-da-manhã é refrescante, culminando com aquela expressão de “não acredito que só tem isso pra comer e é isso que eu vou ter que comer”. Depois, ele ainda pede leite, mas só tem frio – “frio?”, pergunta indignado.

Reclamar, aliás, é o que não falta. Quem nunca entrou no chuveiro, descobriu que só tinha água fria e saiu p. da vida porque de jeito nenhum que eu vou tomar banho frio agora? Mas teve que tomar, e teve que se contorcer todo debaixo do chuveiro pra não sentir tanto frio.

Ser criança como Mauro é tentar atravessar de um apartamento para outro pela varanda, mesmo tendo uma parede separando os dois. Mesmo assim, Mauro e eu achamos que dava e trepamos no parapeito e fomos pé ante pé tentar chegar ao outro lado.

Ser criança é receber ordens dos mais velhos para não mexer em nada e, assim que a barra ficar limpa, meter a mão em tudo que está em cima da mesa, abrir todas as gavetas, subir em cima da cadeira pra ver o que é aquilo ali em cima da estante.

Ser criança é ser chamado pela mãe pra sair ou pra escovar os dentes e gritar: “Calma, deixa eu dar só mais uma jogadinha!”, e continuar o que estiver fazendo até a mãe estar na porta de saída já.

Ser criança é não entender as histórias que os adultos contam. Especialmente aqueles adultos mais velhos e lerdos. Ser criança, então, é dizer que entendeu mas fazer a bendita cara de: “que isso que você tá falando, tio?”.

Ser criança é pegar fotos de mulheres seminuas e ficar olhando, mesmo não entendendo o que é aquilo ou pra quê diabos serve, só admirando a beleza das bem torneadas pernas. Ser criança também é, como Mauro, olhar na abertura atrás do trocador da loja pra ver as moças bonitas de calcinha e sutiã; se decepcionar vendo que só tem velhinha carcomida comprando roupa também é típico.

Ser criança é brincar e fazer careta em frente ao espelho. Ser criança é criar uma dança maluca pra uma música chata e depois ver a festa inteira – até os adultos! – dançarem que nem malucos como você.

Ser criança é tirar sarro e causar inveja dos outros meninos depois de receber um beijo na bochecha da bonitona mais velha da rua; e é deixar a menininha que arrasta uma asa por você com ciúmes por você estar todo bobo depois de receber o glorioso beijo facial. É imaginar coisas sobre o motoqueiro misterioso que namora a bonitona. Em O Ano…, essa idealização do “namorado da bonitona” é genial. Ele sempre vem buscá-la nos lugares de moto e com capacete na cabeça, nunca vemos o rosto dele, quase como um super-herói. A seqüência dele tirando o capacete passa em câmera lenta, quando os meninos finalmente vêem quem está por trás daquela fantasia. O homem então vira ídolo. Criança sempre cria ídolos rápido assim!

Ser criança é tentar se virar sozinho e só fazer merda.

Isso é coisa de filho único também, e em O Ano…, Mauro é filho único e vive como tal. Me identifiquei mais ainda com Mauro e com o filme por causa disso. Mais do que qualquer artimanha infantil, ver ele fazer as mesmas coisas que eu fazia como filho único há mais de dez anos me deixou emocionado.

Ser teimoso, mimado e desconfiar de todo mundo à primeira vista é normal, mas são típicos de filhos únicos, os peixinhos da mamãe, queridinhos do papai, bonitinhos da vovó. Querem tudo sempre agora e agora e agora e não pode ser depois de agora! E qualquer estranho fora do círculo conhecido é tratado com suspeita e indiferença até que se prove o contrário.

Mas não foram só sentimentos “ruins” que o filme trouxe. A nostalgia bateu forte quando vi Mauro – sozinho no corredor do prédio ou dentro da casa do avô – driblar o ar, chutar contra a parede ou correr até o infinito com a bola de futebol nos pés enquanto narra uma possível jogada do Brasil. Nos anos 70, era Rivelino pra Jairzinho, que tocava pra Pelé, que passava por um, passava por outro, chuta e é GOL! Na minha época, Bebeto faz jogada pela direita, corta um, tira outro, toca pra Romário, que entra na área, dribla o goleiro e chuta com o gol vazio! De vez em quando, tinha até espaço pro time adversário, representado igualmente por mim. Eu sempre ganhava.

Além do futebol, Mauro brincava de botão. Compartilhava do mesmo interesse que ele! Quando não era botão, era o videogame mesmo, o glorioso International Superstar Soccer (Deluxe ou não). E não podia faltar a narração em off, homenageando meus jogadores e menosprezando os do time adversário. Com sete anos, o quão imparcial eu conseguia ser?

Porém, depois de tudo isso, teve mais uma coisa que me tocou. E essa foi mais forte que qualquer outra. Trouxe lembrança de umas das coisas que eu mais gostava de fazer.

Mauro, decidido a ser goleiro, pegou luvas velhas, sua bola de futebol, subiu em cima da cama, e começou a arremessar a bola na parede. Quando ela voltava, ele pulava e simulava esplendorosas defesas, não esquecendo, é claro, de narrar cada pulo. Enquanto filma Mauro pulando atrás de cada bola, Cao de repente corta para a televisão, que mostra jogo da Copa de 70. O atacante de uma seleção chuta a bola em direção ao gol. No meio do caminho, Cao não espera a pelota chegar à baliza de verdade para uma eventual defesa ou não do goleiro adversário. Cao corta para Mauro em cima da cama – em um contracampo perfeito – agarrando sua surrada bola ao invés da oficial da televisão. Repete esse mesmo esquema duas ou três vezes.

Cao, com esse simples ato, além de unir Mauro, no Brasil, às seleções jogando no México, me fez chorar. Chorar por lembrar de mim, aos seis anos, durante a Copa de 94, fazendo o mesmo. Ou quase o mesmo. Enquanto assistia aos jogos na televisão, ficava tentando imitar os lances, os chutes, as defesas. Quando era gol, corria para meu quarto, a minha pequena bolinha de futsal em mãos. Minha cama era o gol. De frente para a parede, eu era o atacante, que passava pelo zagueiro ou subia mais que o marcador pra cabecear. Depois que a bola rebatia na parede, eu virava o goleiro que, claro, tomava o gol, igualzinho como no jogo de verdade.

E assim, nesse jogo de fazer, desfazer, imitar e repetir os jogadores profissionais, minha paixão pelo futebol foi crescendo e na memória, ficou essa minha ingênua brincadeira, trazida à tona por Mauro em O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: