Ponto morto

            Chegou em casa. Já estava sol. A Maria acenou a cabeça enquanto saía pras compras da semana; Janette sorridente levava o filho da Dona Marluce pra passear na pracinha; Lúcia chegava pra trabalhar toda radiante. Todo dia era a mesma coisa. Chegava pra dormir quando todos tinham acabado de acordar. Passava a noite rodando pelo Rio no seu Santana velho, pulando de passageiro em passageiro, casa em casa, rua em rua. Trabalhava automaticamente, primeira, segunda, terceira, reduz, segunda, acelera, freia, acelera, terceira, segunda, ponto morto. Solta a embreagem, primeira, segunda, terceira, quarta, quinta, você pode ir um pouco mais devagar? Acho que vou vomitar. Reduz, reduz, reduz. Vira à esquerda, vira à direita. Vou saltar ali, ok? Ok. Deu treze. Não tem menor não? Nem tenho. E tome buscar a carteira e dar troco do próprio bolso. Todo dia era a mesma coisa. Por que esses babacas não me avisam que o cara vai pagar com cinqüenta?

Olhou pra trás antes de entrar na portaria. Três babás conversavam entre si enquanto os carrinhos eram deixados de lado. No canto da praça, dois meninos chutavam uma bola de futebol aleatoriamente. Passou a primeira e entrou. Bom dia, seu Jonas. Bom dia, Zé. Chegou tarde hoje, hein. É, fiquei até mais tarde rodando. Mais cedo você quer dizer, né. Isso. Zé riu. Jonas não. Zé era chato, como todo porteiro. Pra ele, não interessava ele estar lá ou não, não precisava falar nada com ele, só precisava fazer uma coisa. Na verdade, duas. Abrir a porta e consertar as freqüentes infiltrações que davam no 403 e molhavam o quarto dele.

Separado há treze anos, há nove tinha virado taxista noturno. Sem amigos, distante da família, se separar da sua mulher foi a gota d’água pra sua vida virar um nada. No começo, a rotina era infernal. Com o tempo, se acostumou. Hoje, passa marchas como vai ao banheiro. Acha até melhor que trabalhe durante a noite e durma durante o dia. Enquanto a maioria das pessoas tenta viver, ele dorme. E quando todas desistem e vão dormir, ele aparece e fica vagando pelas ruas semidesertas. Assim, não fala com ninguém e não se sente impelido a procurar qualquer amigo antigo ou rever algum familiar perdido. Vive como fantasma.

Grisalho e flácido. Sai do espelho, Jonas, isso não importa. Saiu do espelho. Não importa. O que importa é passar a primeira, a segunda, a terceira e deixar o passageiro em casa. Ganhar o salário e pagar as contas do mês. Comprar pão fresco pra comer quando chegar e uma Lasanha Sadia antes de sair. Primeira, segunda, terceira. Minha vida é um ponto morto. Mas não hoje.

Às nove horas da noite anterior, parou no Largo do Machado pra buscar uma menina. Santa Teresa, tudo bem, vamos por Laranjeiras mesmo. Nossa, essa subida não acaba nunca? Vira aqui à direita? É, ok. Que porra de despertador é esse que não para de tocar? Vai se fuder, menina! Vou até cobrar mais pela subida e por essa porra escrota que não para de tocar. Deixou a menina ali naquele portão azul em frente à placa de 40, tá, moço e foi embora. Não passaram dez minutos e o maldito despertador tocou de novo. A idiota esqueceu o telefone no carro, bem feito! Pegou e desligou. Que telefone escroto, podia ter um melhorzinho, hein. Foda-se, agora é meu.

Carro 051, você encontrou algum telefone celular no banco de trás? Não vou responder. Carro 051, por favor, responda, a última passageira diz que esqueceu o celular na sua viatura. Passou a quarta. Não vou responder. Passou a quinta.

Em casa, pegou o telefone celular roubado. Não ia responder à operadora, chata, mal-humorada, mal-comida. E ele? Não quis pensar nisso. Estava com o celular de outra pessoa. Os passageiros entravam e saíam do seu Santana sem dar satisfação, enquanto ele passava a marcha e virava o volante e nada acontecia. Não agüentava mais os passageiros. Pegar aquele celular e mentir pra operadora foram as únicas adrenalinas de verdade em muito tempo. Trancado em casa, sem marcha pra passar, freio de mão pra puxar ou troco pra dar, ele segurou o celular da menina desconhecida. Apertou com força, cheirou, mordeu, lambeu. Abriu, fechou. Ligo ou não ligo? E se ela ligar pro número quando eu ligar? Eu desligo! Ligou. Mensagem bonitinha, deve ser do namorado. Idiota. Ia ligar pra algum conhecido. Pra quem? Não tinha ninguém. Ligou pra sua casa. O celular não pode completar a ligação pois o chip está bloqueado. Filhadaputa bloqueou o chip, agora mesmo que não devolvo!

Sentado no sofá, decidiu investigar o celular. Olhou os contatos, e depois de percorrer a lista com 174 nomes, fechou o flip. Abriu. Não tinha conhecido 174 pessoas direito na sua vida inteira, e aquela menina com um terço da idade dele tinha todos esses nomes no celular. Fechou. Abriu de novo. Que flip ruim. Foi xeretar as mensagens. Quem é esse cara que só tem mensagem dele? Deve ser o namorado idiota. No sofá, vendo as mensagens, pensou que nunca tivera alguém como esse namorado. Te amo pra sempre, você é minha linda, quero te agarrar o dia inteiro, te amo, te amo, te amo, te amo. A menina devia gostar muito dele, eles deviam se amar. E eu? Eu nada. Tenho nada. Tenho um Santana e um apartamento fudido. Eu passo a primeira, a segunda, a terceira, a quarta, reduzo, dou o troco e de vez em quando peço pra não baterem a porta com força.

Cansado da noite e da adrenalina frustrada, deixou o telefone de lado e dormiu no sofá.

Uma resposta to “Ponto morto”

  1. Massa Says:

    Parabéns, lek. Texto FODA!

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