Arquivo de Maio, 2009

Isolamento acústico (2)

23 Maio, 2009

O quarto não devia ter mais do que 10m². A luz invadia o cômodo de forma tímida por uma janela na parede colorida. Não era escuro, mas também não era claro. Havia uma cama a poucos passos da porta, uma escrivaninha na parede oposta, sobre a qual ficavam um computador e alguns papéis. O quarto era ocupado ainda por uma pequena televisão, uns armários e umas estantes com muitos livros.

A pintura azul das paredes era visível apenas em uma das superfícies. Todas as outras eram revestidas por caixas de ovos. “Por que as caixas de ovos?”, perguntei. À sua maneira, ela explicou que o objetivo principal era impedir que a poluição sonora lhe atrapalhasse os pensamentos. Na primeira e única vez em que visitei seu quarto, as caixas de ovos foi o que mais me chamou a atenção.

Com um olhar era impossível desvendar aquele mistério. Presumi que a ocupante buscava refletir na disposição do quarto uma imagem perfeita de sua personalidade. Nunca pude ter certeza se minha suposição era correta. O fato é, no entanto, que o cômodo falava pouco. Assim como ela, parecia prestar muito mais atenção à sua volta. Tentava absorver as cores, os cheiros, os gostos, as vibrações daquilo que a rodeava.

As caixas de ovos não eram a única forma de isolamento acústico. No dia-a-dia meus olhos sempre desviavam para os grandes fones de ouvido que ela carregava pendurados ao pescoço. Jamais tive coragem de perguntar se ela ouvia em sua reclusão. Nunca soube se ela tocava algum tipo de instrumento, se fazia parte de uma banda. Ela jamais demonstrou qualquer tipo de talento musical. Pelo contrário, sempre errava o tempo das músicas e nunca se atrevia a cantar.

Apesar do isolamento, ela conseguia sempre se manter a par do corrente “lá fora”, de alguma forma. Em nossos monólogos ao longo dos anos, ela jamais demonstrou qualquer tipo de dúvida ou desconhecimento. Os assuntos eram debatidos com afinco, dedicação, profundidade.

Não sei dizer ao certo como foi a primeira vez em que a vi. Tenho certeza somente de que, quando me dei conta, ela estava lá. Também não faço idéia de quanto tempo convivemos. Sei apenas que não foi o suficiente. Não houve tempo hábil para que pudesse contemplar seu charme; me perder em seus pensamentos; naufragar em seus olhos; me esconder em seu abraço; me acostumar com sua maneira esnobe. Ela era demais para aqueles 10m². Ela sobrava em qualquer lugar. Inclusive no meu coração.

Seu único defeito – que sempre me incomodou – era me ignorar quando não falava de frente para ela. Não sei se era arrogância de sua parte e, novamente, nunca tive coragem de perguntar. O respeito que tinha por ela e, acima de tudo, o medo dela achar minhas indagações estúpidas, me faziam selecionar bem as questões que propunha. Tinha medo dela decidir que minha inferioridade não era mais digna de sua companhia. E, mais ainda, me atemorizava a possibilidade dela me afastar para sempre.

Lembro-me da primeira vez em que ousei lhe perguntar algo. Todos os pormenores da ocasião estão frescos em minha memória. Era uma segunda-feira de manhã, havia acabado de chegar à universidade após uma noite mal dormida. Contemplei a multidão que conversava sobre o fim de semana nos pilotis da faculdade. Poucos comemoravam com camisas alvinegras – com gol de Lúcio Flávio, o Botafogo vencera o América e conquistara o título de campeão carioca de 2004. Apertei as pálpebras. Diminuí a entrada de luz que machucava os olhos cansados pelas poucas horas de sono. Olhei novamente ao redor e a vi sentada sozinha em um banco, de costas para mim, com os fones no ouvido.

Caminhei na direção dela evitando amigos. Naquele momento a vitória do meu time do coração era insignificante. Queria apenas falar com ela; perguntar por que estava ali sozinha; como se chamava; que curso fazia; para que time torcia; Porém, temia atrapalhar seu momento de introspecção. Absolutamente apavorado, decidi manter distância e, com muita cautela, soltei uma pergunta.

Fiquei impressionado com a forma como ela recebeu minha indagação. Foi uma reação extremamente inesperada. A atitude dela despiu-me de qualquer dignidade, deixou-me exposto. Desapontado, virei as costas e limitei-me a comemorar a vitória do Glorioso. A partir daquele momento, fui obrigado a assumir uma posição de inferioridade: ela exercia sobre mim um fascínio infinitamente maior do que o que eu exercia sobre ela. Diversas vezes voltei aquele momento, formulei teorias. Resta-me pensar que o vigor das centenas de vozes que inundavam o pátio da universidade naquele instante engolfou meu gemido tímido antes que este pudesse vencer a barreira de isolamento a que ela se propunha com os fones de ouvido.

Foi por medo de perguntar para ela que nunca soube o motivo que a fez partir. Antes dela ir embora, e isso faz alguns anos, ela proferiu umas poucas palavras. Guardo-as até hoje. Recordo que elas saíram da boca dela de forma vomitada. Parecia que ela tinha enorme dificuldade para se expressar. O som veio entrecortado, repleto de altos de altos e baixos. Parecia um menino na puberdade, com uma voz de gralha. “Seja surdo aos apelos negativos”, despediu-se.

Esse foi o último dos atos incompreensíveis dela. Confesso que não entendi o que ela quis dizer. Mas suas palavras me tocaram. Desde então, adotei outro rumo. Percebi que há muito o que ser visto, cheirado, provado, sentido. Não cheguei a forrar as paredes do meu quarto com caixas de ovos – o Rio é muito quente no verão. Mas comprei fones de ouvido iguais aos dela. E há momentos em que resolvo me isolar. Lá fico, deitado na cama, no escuro, imóvel, respirando o mínimo, a contemplar a maravilha do isolamento.

Não sei para onde ela foi. Muito averiguei depois que ela partiu. Perguntas supérfluas: como se chamava; porque havia ido sozinha; para onde ia; que curso fazia; para que time torcia. Nada. É possível que sua partida tenha um significado que não consigo entender. Desisti de tentar descobrir. Defini que era demais para a minha compreensão. Não queria compreender. Depois de tantas perguntas sem respostas, concluí que não era mais para investigar. Chega de perguntas banais. Não há dúvidas de que ela foi para um lugar melhor. Ela sempre foi muito acima da média. Acredito que em suas análises silenciosas, ela o percebeu.

Dei-me o luxo apenas de levantar uma última dúvida. Fico pensando se ela, algum dia, teria ouvido ou ouviria uma música de Walter Franco, na voz de Chico Buarque. Não sei o nome, mas é a cara dela. “Não diga nada// Saiba de tudo// Fique calada// Me deixe mudo// Seja no canto, seja no centro// Fique por fora, fique por dentro// Seja o avesso, seja a metade// Se for começo, fique a vontade// Não me pergunte, não me responda// Não me procure, e não se esconda ”. Agora, é só o que ouço, imóvel, no escuro…

Licença poética

20 Maio, 2009

Este poema é uma construção artificial,

uma inversão das convenções. Fingimento,

que cumpre as exigências do estilo.

Este poema não é sobre flores.

Brinca com a sinestesia:

as cores dos cheiros, os sons dos sabores, o tato;

numa celebração do cotidiano anônimo.

Na palavra assombreamento, uma grandeza,

um estado elevado. Sublime

é a perfeição acima do normal,

próxima da espiritualidade. Visitação

tem uma característica específica de paz. Nirvana

Isolamento acústico

19 Maio, 2009

O quarto não devia ter mais do que 10m². A luz invadia o cômodo de forma tímida por uma janela na parede colorida. Não era escuro, mas também não era claro. Havia uma cama a poucos passos da porta, uma escrivaninha na parede oposta, sobre a qual ficava um computador e alguns livros. O quarto era ocupado ainda por uma pequena televisão, uns poucos armários e umas estantes com muitos livros.

A pintura azul das paredes era visível apenas em uma das superfícies: todas as outras eram revestidas por caixas de ovos. “Por que as caixas de ovos?”, perguntei. Em poucas palavras e com alguma dificuldade ele explicou que o objetivo principal era impedir que a poluição sonora lhe atrapalhasse os pensamentos. Na primeira e única vez que visitei seu quarto, as caixas de ovos foi o que mais me chamou a atenção.

Com um olhar era impossível desvendar aquele mistério. Presumi que o ocupante buscava refletir na disposição do quarto uma imagem perfeita de sua personalidade. Nunca pude ter certeza se minha suposição era correta. O fato é, no entanto, que o cômodo falava pouco. Assim como ele, parecia prestar muito mais atenção à sua volta, tentando absorver as cores, os cheiros, os gostos, as vibrações daquilo que o rodeava.

As caixas de ovos não eram a única forma de isolamento acústico. No dia-a-dia, meus olhos sempre desviavam para os grandes fones de ouvido que ele carregava pendurados ao pescoço. Jamais tive coragem de perguntar se ele ouvia em sua reclusão. Nunca soube se ele tocava algum tipo de instrumento, se fazia parte de uma banda. Ele jamais demonstrou qualquer tipo de talento musical. Pelo contrário, sempre errava o tempo das músicas e nunca se atrevia a cantar.

Apesar do isolamento, ele conseguia sempre se manter a par do corrente, de alguma forma. Em nossos monólogos ao longo dos anos, ele jamais demonstrou qualquer tipo de dúvida ou desconhecimento. Os assuntos eram debatidos com afinco, dedicação, profundidade.

Entretanto, sempre me incomodou o fato dele me ignorar quando não falava de frente para ele. Não sei se era arrogância de sua parte e, novamente, nunca tive coragem de perguntar. O respeito que tinha por ele e, acima de tudo, o medo dele achar minhas indagações estúpidas, me faziam selecionar bem as questões que propunha. Tinha medo dele decidir que minha inferioridade não era mais digna de sua companhia.

E por isso nunca soube o motivo que o fez partir. Antes dele ir embora, e isso faz alguns anos, ele limitou-se a poucas palavras. Elas saíram de forma vomitada, ensaiada. Parecia que ele tinha enorme dificuldade para se expressar: “Seja surdo aos apelos negativos”.

Cada escolha, uma renúncia

17 Maio, 2009

Um eterno perde e ganha. O dia-a-dia é composto por escolhas e sacrifícios. Efeito borboleta. É uma borboleta que bate as asas no Japão e provoca uma tromba d’água no Rio. É a necessidade de sacrificar para “simplesmente” estar.

No século XXI, os jovens passaram a medir o grau de independência a partir da primeira conta de aluguel. O principal sinal de emancipação é a cobrança mensal de seja-lá-o-que-for com o nome do inquilino na caixinha de correio do 203. Segundo pensamento comum, a independência está intimamente ligada ao movimento de abandono da casa dos pais.

Entretanto, poucos são aqueles que percebem que complicado mesmo é morar sob a sombra do paternalismo. Este desafio, repleto de luxos e mordomias que apenas os aventurados podem notar, é o que dignifica o jovem. Sofrer pelo almoço ser peixe quando se quer bife é extremamente desagradável. Ser obrigado a arrumar o armário, separar as roupas sujas, é irritante. Arrumar a cama todas as manhãs é impensável. Sair debaixo da asa materna é mais do que uma meta, é além de uma necessidade de aprovação, é uma obrigação da maturidade.

Porém, essas tarefas dão outro sentido à existência do ser humano jovem. De fato elas parecem ínfimas analisadas do ponto de vista “independente”. Elas se tornam singelas e realizáveis. Uma troca justa para o retorno de superfluidades aparatosas como três refeições ao dia; o cesto mágico, no qual um indivíduo deposita as roupas sujas e elas, como se por milagre, aparecem no armário lavadas, passadas e dobradas; o banheiro limpo; a comida pronta e a louça seca.

Viva a casa da mamãe…

LonDublin

12 Maio, 2009

London is extreme. É o auge do Big Ben de manhã, de tarde, de noite. É o extremo de 26 Porsches na rua em um dia, contados. É o máximo do Albert Memorial, do British Museum, do Buckingham Palace com e sem troca de guardas, da Harrod’s, do HMS Belfast, do Kensington Palace, do Lords Cricket Ground com um centenário de Ravi Bopara, do Museum of London, do Natural History Museum, do Royal Albert Hall, da Royal Opera House, do Shakespeare’s Globe, da Southwark Cathedral, da St. Paul’s Cathedral, do Tate Modern, do Victoria & Albert Museum, da Westminster Abbey e da Westminster Cathedral todos em três dias, sem perder o glamour e o estilo. Sem contar Trafalgar Square, Brick Lane, Covent Garden, Soho e Hyde Park, brilhantes paisagens de passagem. É a surpreendente harmonia entre o Parlamento e a London Eye, banhados pelo Tâmisa e ligados pela Tower Bridge. É a energia de uma semifinal da Copa dos Campeões da Uefa em um pub repleto de Blues decepcionados pela desclassificação do Chelsea após o empate com o Barcelona. É a falta de orgulho da London Pride à temperatura ambiente. É o charme das mulheres européias que tentam desfilar pelas ruas de Picadilly Circus com o mesmo ar esnobe das inglesas. É o sutil estilo londrino ironizando os visitantes com orientações no asfalto para os desavisados não serem atropelados. É o humor negro do pólen que cai incessantemente durante a primavera. É extremo!

Dublin is industrial. É onde paga-se para visitar todos os pontos turísticos, a cerveja é cara e os prédios são todos parecidos. Pelo menos uma construção – seja ela rua, ponte, prédio ou praça – leva o nome de James Joyce. É o lar da Guinness, a cerveja que acha que agrada aos homens. É uma Cohab que se acha metrópole. É uma cidade encantadora. É a Temple Bar lotada desde as 18h com pessoas felizes, de todas as etnias, estilos e preferências, reunidas para tomar uma cerveja irlandesa que custa os olhos da cara. É custoso!

Apelo sentimental

4 Maio, 2009

Fiquei bastante tempo pensando em escrever algo.Para desabafar, fazer rir, me divertir e divertir os outros. Mas sempre faltou paciência. A preguiça imperou. Algum programa momentaneamente mais interessante aparecia. Uns elogiam-me (sim, estou em Coimbra e, por isso, vou falar português correto) e dizem que escrevo bem. Outros reclamam que só escrevo quando estou sob o efeito de drogas (o que não é verdade nesse momento) e sou excessivamente sentimental. O fato é que o sentimentalismo sempre arranca de mim as melhores palavras. São elas:

Estou esquecido a 8 mil quilômetros de casa, com outra rotina, pessoas estranhas que não falam a minha língua, morrendo de saudade de casa. Odeio o papo de “como você está sumido!”. Irmão, tenho o direito de estar sumido e não preciso te falar isso. Você, como meu amigo, deveria saber.

Não quero ter que me preocupar em garantir as pessoas que amo. Só isso…