Arquivo de Março, 2008

Ahhh, São Paulo

31 Março, 2008

Eu preciso reconhecer: São Paulo é a melhor cidade do Brasil. É lá que está o dinheiro, os arranha-céus e os carrões. É lá que estão os políticos e os engarrafamentos. É cidade grande, poluída, símbolo de desenvolvimento.

Sampa, meu, não deixa a desejar para nenhuma outra metrópole. Ostenta com louvor o seu título. A única coisa que os paulistas não têm são a música carioca, a mulher fluminense e as praias do litoral do Rio de Janeiro. Calma. Então o que é que SP tem?

Eu queria ser paulista só para ter inveja do Rio de Janeiro.

A sina da auto-piedade

31 Março, 2008

Tentando botar ordem nos meus pensamentos:

A verdade é que as pessoas só se fingem de liberais. Noventa por cento de todos os seres que habitam esse planeta, na verdade, são conservadores convictos, mesmo que não saibam – o que os torna uns hipócritas de qualquer forma, e como toda hipócrita é conservador… São pessoas não sabem o que são princípios ou convicções e enchem a boca para criticar os outros, para falar de planos futuros, coisas que já fizeram ou jamais fariam. Falam tudo da boca para fora, porque pimenta no cu dos outros é refresco.

Eu tenho 75 motivos exaltar as minhas convicções e princípios. R$75 motivos…

Tenho educação o suficiente para reconhecer a minha hipocrisia. Mas tenho o orguho de falar que busca sempre a saída mais liberal. Corro atrás do que eu quero, sem palhaçadas ou firulas. E me fodo…

Me arrependo de ter feito a coisa certa, pecebo que no Brasil o correto não tem vez. Tento fazer da forma errada, para me dar, para tirar vantagem, mas a consciência não permite. Porra, isso é que convicção, isso é que é princípio, isso é saber diferenciar o certo do errado. Mas o que me dói é saber que eu sou otário por fazer a coisa certa e me arrepender de fazê-lo. Não deveria ser assim, não pode ser assim…

O campo das realizações próprias é parte de conto de fadas. Não existe realização particular. Você se satisfaz apenas ao ver a inveja no olho do concorrente. Se não houver alguém para querer o que você tem, não há sentimento de felicidade, não há porque fazer algo bom. As socialites jamais doariam dinheiro ou tempo para causas sociais se não houvessem pessoas para falar “Ah, que bonitinho, ela é socialmente engajada”. Socialmente engajada o caralho. Ela quer compensar as merdas dela, os gastos estúpidos e as banalidades com um falso sentimento de altruísmo. Altruísmo não existe!

Pessoas decentes não existem. O que resta é tentar encontrar o menos errado, o menos defeituoso e o menos estúpido para se relacionar. Eu já desisti, meu esforço foi em vão. Como diria algum pasto evangélico: entreguei a Deus.

Uma província da roça

11 Março, 2008

O protagonista de hoje é mais um trabalhador da grande metrópole. Não é um personagem das massas, mas não deixa de ter suas responsabilidades: acorda cedo, se arruma, estuda, trabalha e volta para casa. Ocupa o espaço que sua mãe humildemente lhe cede apenas para cochilar. O resto de seu tempo é gasto em algum lugar ou no trajeto para tal destino. Saindo do trabalho as 19:23, como todo trabalhador do turno da tarde, o protagonista corre para pegar o ônibus. A calçada desnivelada e a calça larga tentam complicar o seu trajeto até a porta entreaberta do Mercedez que o espera. Ao subir os três degraus que o separam da liberdade rumo ao lar, ele se dá conta de que, assim como ele, há outros milhares de funcionários de alguma empresa indo e vindo. O ônibus está cheio. Mas ele consegue avistar um assento vazio. Ele ocupa os espaços e, rapidamente, assegura seu lugar. A questão é que, só depois de sentado, é que ele percebe porque o lugar estava vago. O homem ao seu lado estava com uma aura de etanol bastante forte que se intensifica a cada expiração provada pelo carinho em sua galinha. Não, não é nada do que você está pensando e sim, o moço carregava uma galinha – o animal irracional – no ônibus. Depois do choque, o protagonista conseguiu entender: “O campeão não tem como transportar a sua galinha. Ela deve pôr os ovos da única refeição diária dele. É até compreensível”. Quando o protagonista finalmente se acostuma com a idéia, o velho está dormindo, roncando alto, em seu décimo sono. Do nada, absolutamente do nada, o grandpa acorda, começa a se mexer brutalmente – papo de ataque epilético –, cutuca nosso trabalhador e fala coisas ininteligíveis que se confundem com o bafo de álcool e com a falta de oportunidade e de atenção. Ao que, simpaticamente, o trabalhador responde: “Não estou entendendo porra nenhuma que o senhor está falando”.

 - Ah, certo, você não entenderia, desculpe – disse o galinheiro.

Na hora em que ia saltar do ônibus, ao percorrer os três degraus da liberdade para pisar na calçada, o vovô quase foi atropelado por uma carroça. Sim, uma carroça, puxada por um pangaré maltrapilho e triste. “Porra, Joelmo, tu vai ficar pilotando essa porra pra cima dos outros mesmo?”. Com o fechar das portas e o reinício do ronco silencioso de um 524 velho (Amigos Fudidos é o nome da companhia de autoviação), nada mais se ouviu. Mas foi possível perceber apenas que, apesar do status e do nome, a Rocinha é uma roça. E pior ainda, o Rio continua sendo uma cidade provinciana.