Arquivo de Dezembro, 2007

Um resumo da mediocridade

20 Dezembro, 2007

Vim ao mundo de parto normal, no meio do mês de junho com o meu destino todo traçado. O nome que herdei de meus antepassados ibéricos parecia resumir meu futuro. Fiquei conhecido como Felipe Mezzo. Tudo sempre foi intermediário na história da minha família. Meu trisavô era o filho bastardo do duque do Vale D’aosta com a segunda de três amantes. A família acabou vindo para o Brasil e se estabelecendo no Rio de Janeiro em 1930. Cinqüenta anos depois, eu nasci. Éramos uma família de classe média média. Não éramos ricos, mas tínhamos certa condição financeira – na média dos brasileiros.

            Apesar dos planos que pareciam estar traçados para mim, acabei me destacando na juventude. Eu não era o mais inteligente, nem o melhor jogador de futebol, muito menos o que tinha todos os amigos e muitas namoradas. Nas palavras de Tia Clara, professora da Classe de Alfabetização, em sua avaliação de final de ano:

“Felipe se distingue por seu desempenho escolar. Seu comportamento é sereno em sala de aula e ativo durante os recreios. Não há dúvidas de que o futebol com os colegas é sua atividade predileta, mas isso não o limita dentro de sala de aula. Sua conduta lhe rende amizades e duas namoradas. Tenho orgulho de dizer que ele é um dos mais queridos pelas professoras!”

            Como meu pai era militar, os membros da família Mezzo se viam obrigados a mudar constantemente. Em treze anos de colégio, troquei de escola sete vezes. De certa forma foi bom, porque a cada novo lugar havia um novo Felipe. Era possível corrigir os erros da cidade anterior e cometer novos equívocos.

            Mantive-me fiel à avaliação de Tia Clara. Fui sempre aquele aluno que não causa problemas, tem seu grupo de amigos, é simpático e tranqüilo. O futebol continuou sendo minha grande paixão e fiquei decepcionado quando me convenci de que não faria daquilo a minha carreira profissional.

            Por eliminação acabei me matriculando na Faculdade de Letras da Universidade do Brasil. Resolvi que ia virar escritor, mas nunca tive paciência para criar um perfil psicológico de personagens. Minha habilidade para textos ficou apenas na leitura das grandes obras e dos clássicos da literatura mundial.

            Contente com a minha condição de estudioso, dava aula e fazia pesquisa. O futebol de final de semana era uma constante com os amigos e as mulheres iam e vinham. Parecia que apesar do atalho da juventude, quando saí do trajeto da mediocridade, havia voltado para a mesma estrada. Não havia mais desafios.

            Em mais um dia de rotina, eu estava a caminho do trabalho quando algo me bateu. Era um sinal, uma mensagem que vinha dos céus em forma de defeco de pombo. A indignação que aquilo me causou foi descomunal. Foi a gota de urina. Como é possível uma ave que não é nativa de meu país ter a ousadia de cagar em cima de mim! Jamais!

            Parti para a busca de novos desafios. Fiz uma lista com aqueles clichês que as pessoas consideram radicalizar. Eu já havia feito tudo e nada daquilo tinha me instigado. Nesse mundo faltavam desafios que me tirassem do sério, que me compelissem a continuar. Aos 27 anos de idade, não conseguia fugir do caminho traçado para mim.

Eu estava decidido a surpreender. Minha última atitude fugiria de tudo aquilo que estava escrito e decidido. Eu ia acabar com a linhagem de mediocridade dos Mezzo. E acabei. O último herdeiro bastardo está morto.  Num intervalo da minha ansiedade  para formular um plano que saisse do comum, almoçando com amigos, engasguei em uma ervilha e surpreendi a todos com uma morte pouco característica que rendeu meus quinze minutos de fama!

What-ever

3 Dezembro, 2007

O meu carro chefe são os textos emocionais ou engraçados. Mas, infelizmente, dessa vez não há nada de cômico. O que segue é um pedaço do meu coração cerebral, se é que isso existe. Então, por favor, seja gentil.

Uma segunda observação: as atualizações tardam mas não falham.

Segue:

“Nós não temos música, tampouco palavras. Mas temos juras de amizade eterna!”.

Palavras são um conjunto de sons articulados com um significado. Uma significação que remete a uma imagem mental. O problema é que sem memória, essa imagem não existe e a palavra não marca. Será que sem palavras formaríamos a imagem que o outro deseja? E será que sem imagem haveriam palavras e memória? Enfim…

O meu maior medo é que uma amizade não gere memória. Amizade é um laço cordial de amor ou afeição entre dois ou mais seres. Esse laço, por mais simples que seja, tende a causar uma imagem mental. Essa “fotografia”, para mim, é mantida eternamente no álbum da memória e se torna a minha jura de amizade eterna.

Os amigos são cruciais para todos os momentos da vida. Eles estão ali para cumprir um papel, para desempenhar uma função. Para compartilhar vitórias e derrotas, perdas e ganhos. Mas o que eu entendi apenas nesse momento é que a proximidade nem sempre é eterna. As pessoas têm uma importância relativa.

Se as pessoas “desaparecem” é porque o objetivo daquele relacionamento já foi cumprido. Mas não necessariamente porque elas continuam na sua vida ainda há metas a serem atingidas. Fazer sentido de algo inexplicável é demasiado complicado.

A verdade é que, apesar das desavenças, queria dizer que todos vocês têm uma imagem mental muito bem definida na minha cabeça. E eu posso apenas torcer para que, ao ler esse texto, vocês tenham a mesma reação que eu estou tendo ao escrevê-lo.

Muito obrigado por agüentar até aqui,

americano.