Arquivo de Novembro, 2007

Canal 100 x São Paulo

12 Novembro, 2007

O São Paulo não combina com o Canal 100. Isso, digo na lata, sem rodeios. Direto ao ponto. O campeão brasileiro de 2007 não se sairia bem nas câmeras do Canal 100.

Explico.

O Canal 100 ficou marcado pelo modo inovador que registrou partidas de futebol. Diferente de tudo que se fazia na época em que existiu (1958 – 1986); e diferente de tudo que foi inventado até hoje.

A câmera era na altura dos jogadores, como se o espectador estivesse na geral. Mas era melhor que a geral, porque onde a bola fosse a câmera ia atrás. Não só isso, o Canal 100 exibia todos os lances em câmera lenta. O futebol se transformava em espetáculo, em obra de arte.

Vendo os filmes do Canal 100, tem-se a impressão de que o tempo passa diferente. Os cinegrafistas e editores dilataram o tempo até criar uma nova cadeia espaço-temporal especial pro torcedor, agora na sala de cinema. O Canal 100 focava o detalhe, dava tempo aos jogadores, olhava de perto a dúvida do passe, a preparação do drible. A câmera lenta mostrava cada segundo da angústia do goleiro frente à bola, focava o pé do armador no momento do passe. Uma simples jogada era a ocasião mais importante do dia.

 

 

A magia do “futebol Canal 100″

O futebol era um grande baile de artistas, cheios de paixão e de criatividade, passíveis de hesitação, expostos ao erro, mas, é claro, brindados com uma brilhante jogada e um golaço.

O São Paulo Futebol Clube não tem nada disso. O futebol do clube paulista é mecânico, duro, enrijecido. Muricy Ramalho não quer um espetáculo, ele quer o resultado, oras, a vitória acima de qualquer coisa. Em vez de paixão, há pura e simples dedicação. O talento não ocupa nem 10%, é cem por cento transpiração. Não é isso, afinal, o que importa? Ganhar, ganhar, ganhar.

A “eficiência burocrática” do São Paulo

 

A “eficiência burocrática” são-paulina

Não pro Canal 100. Não pro craque, pra centelha de inspiração que pode acender a qualquer momento. O Canal 100 talvez não se importe com o resultado, tanto que em muitos de seus cinejornais não havia imagens de todos os gols da partida. O futebol estava em um plano muito mais alto do que a engenhoca de muricys, parreiras e afins.

O São Paulo é um time muito perfeito para o Canal 100. O jogador sabe pra onde tocar antes de pegar na bola, e efetua a jogada como quem anda pra frente, sem pensar. Robôs presos a esquemas táticos.

O Canal 100 não buscava o futebol imperfeito, mas o futebol verdadeiro, apaixonado e apaixonante.

Como o São Paulo, muitos outros. E se o exemplo do “futebol vencedor” prevalecer, o Canal 100 continuará sem poder desfraldar suas lentes. Talvez seja melhor assim, pois não merece registrar em suas grandiosas lentes o futebol morto dos dias de hoje.

Radinho de pilha

11 Novembro, 2007

11 de novembro de 2007. Flamengo x Santos. Estádio Jornalista Mário Filho.

Cabelos brancos, barba grande, óculos fundo:

– Ninguém hoje mais tem radinho, né…

Cabelo branco curto, pele marcada do tempo, levanta devagar os ombros como dissesse:

– É, outros tempos.

 

O radinho ficou marcado. Cena comum era um torcedor aflito com um rádio de pilha, coitado!, espremido contra a orelha, se esforçando para fazer com que a voz do locutor ficasse mais forte que a massa cantando em volta.

A torcida ainda faz festa. O rádio que não vem mais pra acompanhar.

São poucos os assíduos ouvintes que ainda carregam ao Maracanã o antes indispensável aparelho. De vez em quando, se vê um “velho com radinho”. Poucos, pouquíssimos. No Maracanã, ficam sentados sozinhos. Sozinhos, aliás, pra quem vê. Um “velho do radinho” nunca está só – a companhia é a voz presente no AM ou FM.

Segue a tradição. O velhinho chega ao Maracanã, senta no lugar de sempre, sintoniza na estação preferida e espera o locutor soltar seus bordões na voz já eternizada pelo alto-falante do radinho.

Quando avistados, passam a ser ponto de referência nas arquibancadas.

Se o juiz não dá o pênalti, todos em volta perguntam ao velhinho “o que o rádio falou?”. Se o impedimento é duvidoso, emendam direto, “foi ou não foi?”. Se um jogador corre pra entrar em campo, não hesitam: “quem sai?”.

O radinho de pilha sabe. O rádio sempre sabe antes do torcedor. E se o rádio sabe, o “velhinho do rádio” também sabe.

Em tempos de vinte câmeras em campo, pay-per-view, replay e câmera lenta, o fanático no estádio ainda pode recorrer ao bom e velho aparelho radiofônico. Suas ondas vêem o lance de perto, entendem primeiro, dizem antes.

A realidade é, como constataram os senhores saudosos do jogo de hoje, o sumiço dos radinhos. As pilhas foram trocadas. Mesmo eles, antigos donos de um surrado e quadrado radinho de pilha, hoje já não levam ao estádio os antigos companheiros.

Certas coisas mudam. Mas marcam gerações. E ficam na memória, de quando o futebol era drible, o lançamento, a triangulação, o canto da torcida e o chiado do radinho de pilha.

Sardinhas em lata S/A

9 Novembro, 2007

É um absurdo! Toda manhã, principalmente às segundas-feiras e nos dias chuvosos, a barca sentido Niterói Rio fica um inferno. Filas enormes para passar da roleta de entrada. E quando abre o portão para os passageiros irem em direção a embarcação parece uma procissão, passos apertados e corpos espremidos.

O absurdo é que a empresa BARCAS.S/A, que tema concessão do governo do estado para fazer o transporte do trajeto, e investe pouco para o conforto dos passageiros, comparado ao lucro no fim do mês. Não sei quantas mil pessoas passam por ali, mas todos merecem um mínimo de qualidade na travessia. Sem contar que as barcas novas são disputadas pela maioria dos usuários, porque as antigas são peças de museus. É mais rápido atravessar de caiaque.

Deveria haver um aumento no número de embarcações nos horários de pico – maior que já há. A população que usa o transporte diariamente sofre com os apertões e os sacolejos na chegada. Esse drama é vivido na ida. Na volta creio que também há, mas um pouco menor, porque a população se divide um pouco pelo menos.

Para ilustrar e confirmar o aperto dos passageiros:

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Pequenos inspiradores

8 Novembro, 2007

Os grandes comediantes são exemplos do poder da criatividade. São demonstrações de como a inteligência e sagacidade podem conquistar espaço na mídia e fazer fortuna. Borat – e Ali G. –, Agamenon Mendes Pedrosa e, mais refinadamente, Luis Fernando Veríssimo são ídolos do aspirante a engraçadinho. Eles são verdadeiros ícones da graça e devem ser seguidos.

Mas mesmo assim, são os pequenos engraçados que servem de inspiração e de apoio nas horas de bloqueio. Os anônimos da internet que fornecem hilariantes horas de riso são essenciais para o processo criativo. E nesse século XXI, o iutubill é um meio de expressar essa inventividade.

As seguintes pérolas (americanizadas) são clássicos que vieram do site funnyjunk.com

 

Cientistas e o invólucro da simpatia

2 Novembro, 2007

A simpatia do ser humano é produto da manutenção do estado do invólucro. Da mesma forma como o coração dita as regras das relações afetivas – amor –, e é partido quando os sentimentos não são correspondidos, o rompimento do invólucro caracteriza o mau humor.

Vocês, cientistas de meia tigela, tentam comprovar, a partir de estudos, que estou errado. Afirmam que é o célebro (sic) que controla as emoções, mas eu digo que é o invólucro. E ganho! Pela última vez tentarei explicar as minhas idéias, fundamentadas em diversos conceitos que já são considerados incontestáveis:Cientistas e o invólucro da simpatia

Muito parecido com um envelope – até na sonoridade –, o invólucro da simpatia é uma aura transparente que circunda o corpo do ser humano. Sua espessura varia de pessoa para pessoa e sofre influências genéticas. Ou seja, se os pais de uma criança têm um invólucro superficial e fino, é muito provável que mais tarde o jovem apresente pouca paciência e bastante grosseria.

No passado, pouco se podia fazer por uma pessoa que sofresse por causa da finura do revestimento simpático. No entanto, com o passar dos anos e com a consolidação da magia na sociedade contemporânea, já há uma solução. A ajuda de um mago moderno (que não seja o Paulo Coelho) pode trabalhar o invólucro e aumentar sua densidade e sua espessura. A ajuda desse feiticeiro neurótico é feita em diferentes níveis. A hierarquia se dá pelo título concedido ao sacerdote, que passa por: analista, terapeuta, psicólogo e psiquiatra. Dependendo da necessidade do “paciente”, cada especialista pode tratar melhor da falta de força da cobertura simpática do requerente.

Mas o mundo moderno não trouxe apenas benefícios para o invólucro. Os times de futebol, a necessidade de trabalhar e a crescente pressa são os grandes inimigos do revestimento da simpatia. Os riscos de rompimento do invólucro são extremamente grandes! Situações cotidianas, consideradas negativas para o humor da pessoa, tendem a desgastar o envoltório transparente e podem, conseqüentemente, acabar com a simpatia do ser humano.

Para citar alguns exemplos, posso enfatizar a derrota do time do coração, a vitória da equipe que mais se odeia, a pura e simples necessidade de trabalhar e o aumento da pressa que parece atingir as pessoas. (Esse último elemento é o que mais desgasta o meu grosso envoltório de simpatia, porque as lesmas que dirigem nessa cidade parecem estar prontas para morrer a qualquer momento. Já fizeram tudo o que tinham para fazer nessa vida e, por isso, andam tão devagar.)

Algumas profissões exigem a ausência momentânea do invólucro. Caixa de supermercado é uma delas. São raríssimas as atendentes prestativas que lhe desejam bom dia, boa tarde ou boa noite quando chega a sua vez na fila. Como se não bastasse, há ainda a incapacidade de ajudar a ensacar o material fruto das compras – que paga o salário da infeliz (literalmente). E por último a pura inaptidão para distinguir o que é produto de limpeza e o que é produto alimentício, o que faz com que ela coloque a vassoura e o iogurte na mesma sacola.

Isso foi apenas um exemplo. Os cientistas podem afirmar: “mas nem toda caixa é Cientistaassim!”. Concordo plenamente. Algumas são extremamente voluntariosas, mas são poucas. E são exemplares perfeitos de boa genética, que conseguem burlar a exigência dos empregadores e conquistar os clientes.

Enfim, o meu conceito de invólucro da simpatia é amparado por diversos elementos científicos que acabam por invalidar as teorias hipotéticas da pesquisa de que é o cérebro (aprendam, cientistas, porra!) que controla as emoções. Se não fosse por minha boa genética, que garante essa enorme paciência, eu não estaria aqui argumentando com vocês, boçais, e explicando, mais uma vez, a importância de se manter intacto o invólucro da simpatia.

Eu poderia muito bem ter abandonado a minha racionalidade e partido para a agressão física, em vez da diminuição psicológica. E é por pura impossibilidade muscular que eu vou verbalizar meus pensamentos:

Tomem no ânus.